Que maré nostálgica. É como
se eu fosse bombardeado por todas as coisas não boas que eu já fiz. Como se
meus poucos esforços bondosos tivessem sido apagados com algum tipo de borracha
sádica. Como se meu barco de boas intenções tivesse naufragado no mar das péssimas
memórias. Mesmo mantendo os olhos fechados ou abertos, mesmo mantendo a boca aberta,
na tentativa de gritar por socorro, fechava-a para não adentrar água. Ninguém me
escutaria, estou perdido no meio desse vasto mar. Eu fora tão cruel assim? O
que eu fiz? Não posso começar de novo, mesmo que minha fé em mim mesmo esteja
abalada? Eu só estava procurando um lugar tranquilo onde eu pudesse descansar
minha cabeça de tudo de ruim que já me acontecera.
As memórias ruins adentravam
meu corpo como água. Quebrando cada molécula de bondade de meu corpo. O gosto
salgado era diferente do amargo da tristeza, era agonizante. Meus pulmões
estavam quase sufocando, estou me afogando. Meu corpo estava sem reação, sem
movimento, eu apenas me sentia afundando, cada vez mais e mais. E esse seria o
fim de meus dias, afogado em arrependimentos de coisas que fiz e de coisas que
não fiz. As coisas que não fiz eram as que me sufocavam, as escolhas erradas
que fiz eram as que me afogavam; as que me puxavam para baixo. Cinquenta mil
lágrimas eu havia chorado.
Minha mente lutava
bravamente para não desligar-se, já que meu corpo recusava-se a se mover. Eu
não conseguia nadar, não iria submergir, eram como mãos humanas que me puxavam.
Mãos de pessoas cruéis me puxavam para baixo, e cada vez mais baixo e mais
baixo.
Era meu fim, morreria
afogado em palavras que não dissera.
Meu cérebro estava cansado
de lutar, e aos poucos ia se desligando, lento, lento e mais lento.
Logo adormeceu...
Despertei com um toque em
meu braço, algo me puxava para fora. Eu estava atônito. Meus olhos estavam
fechados, meu corpo inerte, minha mente distante, quase morta. Mas aquele toque
me despertou de alguma forma. Cada vez mais me sentia perto da margem segura.
Até que lábios tocaram os meus. E meus pulmões voltaram a bombear ar para todo
o meu corpo, meu cérebro despertou e quando meus olhos se abriram. Eu estava de
frente da pessoa amada, a qual nunca dissera: Eu te amo.
E eu estava salvo.
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