[...]
No
outro dia pela manhã George fora a feira, trabalhar, Bella foi com ele, como de
costume. Eles chegaram cedo, na cerração do pré-amanhecer e arrumaram a
barraca, Nillo chegou logo depois que o sol nasceu. Bella não estava cansada
ela estava mais disposta do que nunca. Atendia os clientes com um lindo sorriso
no rosto, ela encantava a todos com sua simpatia e beleza, ela possuía muita
beleza para uma menina tão nova e tão pequena.
Já era meio dia quando quase todas as frutas haviam
sido vendidas, George considerava Bella seu amuleto da sorte, pois todas as
vezes que ele a levava para a feira ele vendia todo o carregamento. Bella
sentia-se feliz por estar na hora de voltar para casa para o almoço.
De repetente uma movimentação se iniciou na
feira, guardas foram abrindo caminho em direção à banca onde George estava, ao
ver aquilo ele entrou em uma onda de pavor. Bella não estava entendendo nada.
Atrás dos guardas vinham a mulher e o padre Miguel com sua bíblia em baixo do
braço.
— É ele, vossa santidade, — a mulher apontou o
dedo para George, cuspindo àquela acusação. O padre olhou com cara de
repreensão para ele.
— O que está acontecendo pai? — perguntou
Bella.
— Nada minha filha. Nada, fique calma.
— Senhor Bernard, está mulher lhe acusa de
alquimia e de bruxaria. Ela alega que em sua casa existem porções de bruxaria.
Venha conosco, vamos tirar essa história a limpo.
Naquele momento Bella sabia o que estava
acontecendo. Ela sabia o que iria acontecer se a acusação fosse confirmada, ela
entrou em pânico ao escutar aquilo e num ato de coragem ela disse:
— Meu pai não fez nada.
O padre olhou em direção a menina com uma
expressão de desprezo.
— Não lhe ensinaram que o lugar de uma mulher é
ficar calada? Não tens direito de falar nada, menina mal criada.
Uma onda de fúria, medo e tristeza invadiu o
coração da menina. Ela estava quase fora de si, mas havia sido repreendida
veemente. Então tinha que permanecer calada, mas em seu interior ela queria
começar a gritar. E a questionar. Mas quando ia abrir a boca seu pai murmurou:
— Fica em silêncio, filha. Vai ficar tudo bem. —
ele mentiu um sorriso para ela, na tentativa inútil de acalmá-la.
Ela não havia acreditado naquele sorriso, em sua
cabeça infantil ela tentava pensar em uma saída para aquilo, mas não conseguia.
Ela estava em pânico. Naquele momento ela se lembrou da história do rei
bondoso, e que o rei havia sido escolhido por Deus, mas se o próprio Deus havia
escolhido seus líderes, por que aquilo estava acontecendo? Se for tudo mentira?
Os guardas levaram os dois até uma carruagem,
segurando George pelas mãos para ele não fugir. As pessoas ao redor olhavam com
repreensão e com um sentimento de dúvida pairando no ar. A prostituta, a
acusadora, também fora dentro da carruagem em direção à fazenda de George.
— Pai, me diz, você vai morrer? — mesmo que ela
houvesse sido mandada ficar em silêncio, ela não conseguia, ela chorava, ela
questionava. Ela estava desesperada em busca de uma saída.
— Vai ficar tudo bem, filha. — dizia ele. Mas
ela não acreditava.
— Não, não vai, pai eu estou com medo, — ela
chorava, enquanto abraçava seu pai.
— Calada menina, volte para seu lugar, —
ordenou o guarda. Seu pai estava algemado como um criminoso. E ela estava sendo
mantida como uma criança muda, não podia falar.
O caminho para sua fazenda nunca fora tão
longo, na mente de Bella vinha à lembrança do homem que ela havia visto morrer
naquele dia. Mas ela não queria que o destino de seu pai fosse o mesmo. Ela
rezava todas as orações que sua mão havia ensinado-a e torcia que todas aquelas
acusações fossem removidas e que fossem falsas. George não derramou lágrima
alguma, ele estava absorto em suas orações, e queria passar segurança à sua
filha, que já estava demasiada desesperada. Era novamente inútil, nada naquele
momento faria com que Bella parasse de chorar.
Mas uma hora eles deviam chegar ao destino
esperado, eram duas da tarde quando eles já avistaram a entrada da fazenda.
Anabelle que estendia roupas no varal começou a correr em direção à entrada,
Joseph dormia seu sono da tarde, sem saber o que estava acontecendo. Os cavalos
pararam e padre Miguel foi o primeiro a descer.
— Que ventos o traz à nossa humilde fazenda,
padre?
Ao ver seu marido descer acorrentado da
carruagem, a mulher que ele havia ajudado e sua filha, ela já sabia o que
estava acontecendo.
— Meu deus, — sussurrou ela. Ela sabia que seu
marido estava recebendo a forte repreensão da santa inquisição.
— Seu marido está sendo acusado de Bruxaria,
você sabia disso? — perguntou o padre.
Anabelle deteve-se em suas palavras, ela iria
dizer: Não é bruxaria, é medicina. Mas fora interrompida ao ouvir deu marido
falar:
— Ela não sabe de nada, — disse ele, se ela
fosse complacente ela morreria também, ele não queria aquilo. — Ela não sabe de
nada, — repetiu.
— Santo Deus, George, o que irá acontecer? —
ela começou a chorar. Bella correu em direção a sua mãe, — minha filha.
As duas trocaram um demorado abraço, quando
Anabelle foi em direção a George para abraçá-lo os guardas a detiveram.
Anabelle começou a orar pelo marido, pedindo que ele não fosse morto. Bella a
acompanhou.
— Agora diga-me: Onde você viu a alquimia desse
bruxo? — questionou o padre à mulher.
Ela apontou para o galpão onde ficavam as
porções. Todos foram até o galpão, chegando lá o padre deu de cara com todas as
porções, o padre começou a rir. Bella nunca havia visto aquele lugar em sua
vida, mas ela sabia que seu pai não era um bruxo, e sim homem bondoso que
ajudava às pessoas, e não uma pessoa que rogava a maldade e a maldição, como os
padres diziam que os bruxos faziam. Mas para Bella, sendo bruxo ou não, não
merecia a morte, ninguém merecia a morte.
— E ainda ousa dizer que é inocente. Vamos,
terás seu julgamento. — E eles saíram do galpão voltando para as carruagens, os
guardas detiveram as duas, impedindo-as de dar um último abraço.
Bella e Anabelle sabia que naquele momento
perderia ele, mas Bella não queria que aquilo acontecesse. Ela não achava
certo, mas sabia que em sua condição de criança não poderia fazer nada. Antes
de entrar na carruagem George dissera:
— Adeus, — com uma lágrima brotando em seu olhar.
Aquela era a certeza de que nunca mais o veria.
Aquilo cortava o coração das duas, que continuavam a chorar. Quando os guardas
partiram Bella correu para dentro de casa, chorando em seu travesseiro, sua mãe
estava demasiada triste, mas tentava ser forte para consolar a filha. Por um
momento Bella sentiu-se morta, igualmente ao que aconteceria com seu pai. Ela
imaginava como iria acontecer, e como, ela tinha material mais do que
suficiente, ela já vira um homem morrer.
Então uma ideia atingiu sua mente de forma
abrupta, ela saiu dos braços de sua mãe e correu até o estábulo, sua mãe correu
atrás dela. Mas por ser mais velha não conseguia acompanhar o pique de uma
criança. Bella pegou um cavalo e selou-o.
— Bella,
não! Bella, não! Bellaaaaa, não! — sua mãe gritava entre os soluços de seu
choro, era em vão a menina estava decidida, iria atrás de seu pai em seu
cavalo, ela chorava.
— Adeus, mãe, — sussurrou baixinho com lágrimas
em seus olhos.
Anabelle não podia lidar com a perda de dois
entes queridos, lidar com apenas um já estava sendo difícil. Mas Bella, a sua
Isabella não havia dado-lhe ouvidos.
O cavalo estava tão rápido, mais rápido que os
pensamentos fúnebres de Bella, ela tentava afastar de sua mente o pensamento da
morte de seu pai, mas ela não conseguia, era mais forte do que ela. Ela orava,
pedia a quem quer que fosse que regesse o mundo para que salvasse seu pai. Por favor, Deus, por favor. Eram suas
preces.
Na
cidade seu pai estava amarrado em um toco de pau, a lenha já havia sido posta.
E o padre ainda estava preparando seu sermão, colocando o hábito abrindo a
bíblia ele começou:
— O mundo anda em tempos sombrios, onde aqueles
que não buscam a fé em Cristo, acabam procurando fé em coisas obscuras, ao
desconhecido, ao Chifrudo. Mas se é que isso pode ser chamado de fé, meus
caros, a fé só existe em Cristo vivo e em Cristo ressuscitado. Tudo que é
desconhecido é tentação do demônio, é prática satânica. Pessoas que pensam que
podem brincar de ser Deus; criar vida, criar cura, apenas Deus dá a vida e
apenas Deus cura.
A população olhava para George com pena, ele
sempre fora um bom homem para todos, mas ninguém se opunha, eles não queriam
morrer.
— Falsos profetas viram, pregando sua fé e seus
dogmas, mas nessa terra somente uma fé existe. É a fé em cristo vivo. Hoje este
homem é acusado de brincar de alquimia, e vejam meus caros, a acusação é
verdadeira, porções feitas com um livro de magia para curar enfermos, isso é
obra do satã. E sua pena é a morte. Para que ele não propague a sua alquimia
satânica. Eu lhe concedo o perdão, em nome do pai, do filho e do espírito
santo.
A tocha foi lançada em direção às lenhas, o
fogo havia se iniciado, mas naquele momento o céu estava carregado, ficara
escuro. Aquela era a resposta para as orações de sua filha, da estrelinha. De
repente iniciara-se uma chuva forte no vilarejo, apagando a fogueira, após
apagada a chuva cessou. Ela estava salvo?
— Vejam meus caros, a que ponto a magia chegou,
agora essa criatura consegue manipular o clima, a que ponto a magia chegou,
manipular as coisas de Deus. Vende-o, se esta criatura olhar para o céu
novamente não conseguirá acabar com essa alma imunda.
Mas a lenha estava molhada, era impossível
fazê-la pegar fogo. George fora vendado.
Bella
cavalgava sobre a chuva, sem medo de nada, ela tinha que salvar seu pai, ou ao
menos tentar. Ela já estava chegando na cidade, quando ouviu os boatos de que o
bruxo havia feito chover apenas para não morrer, e naquele momento ela sabia
que seu pai ainda estava vivo. Correndo em direção à praça, contornando a
multidão. Ela desceu do cavalo e contornou com seus bracinhos miúdos a multidão
que estava ao redor da praça. Ao ver seu pai ainda vivo deu-lhe uma pontada de alívio,
mas não o suficiente. Ele estava vendado, ele não podia vê-la.
A afiada guilhotina seria seu destino, sua
morte viria dela. Uma onda de pavor invadiu o corpo de Bella, quando ela
avançou em direção a seu pai.
— Pai, não! Pai, não! Paaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai!
— O guarda a detivera. — Eu te amo pai, — gritou ela. O guarda apertava seus
pulsos cada vez mais.
Ela observou seu pai dar o último sorriso antes
da morte eminente, ao ver a sua cabeça sendo posicionada no apoio quando a
navalha ceifou fora a cabeça de seu pai. A pior dor em seu peito, o pior
momento de sua vida, cada gota de sangue ali derramada era como se uma faca
fosse enfiada em seu peito. Ela estava perdendo seu pai, era a cena mais
traumatizante que uma criança poderia ver. Lágrimas não eram suficientes para
aliviar àquela dor. Nada naquele momento seria suficiente, ela havia perdido a
pessoa que ela mais amava. E então ela fora lembrada do último abraço que haviam trocado, enquanto ele dizia: Está tudo bem, vai ficar tudo bem.
[...]
Wings: A jornada de Bella, páginas 20 - 26
Jairo Sarfati