Alexia não era o tipo de
garota que reclamava da vida. Ela tinha tudo o que queria, boa educação, boas
roupas e tudo aquilo que meninas de classe média tinham. Mas ela reclamava de
outra vida, sua vida amorosa era uma droga. Sempre se apaixonara pelo cara errado,
nunca pelo cara que estava disposto a fazê-la feliz —
embora nunca tenha aparecido um —, mas era típico dela. Alguns viam como masoquismo de
sentimentos, outros como submissão. Mas ela ignorava a todos. Não importa o
quão tentasse fugir, sempre se apaixonaria pelo cara errado.
Talvez eu seja a garota errada,
cogitara.
Era mais de
meia-noite, a rua de sua casa estava vazia, apenas o barulho da selva de pedra
— buzinas, sirenes e ronco de motor —, ela gostava daquela sinfonia. Não
entendia por que passava horas olhando pela janela, pensava que algo em sua
vida fosse mudar se o fizesse. Mas nada mudava, ela sempre continuava sendo ela
mesma. Se sentia patética, queria ser diferente.
Depois de
perceber que seu esforços ao olhar para lua eram em vão, ela resolveu
deitar-se. Seu quarto era como o quarto de toda garota da idade dela, não era
cor-de-rosa, era branco, gostava do ar de paz que as paredes passavam. Perdera
as contas de quantas vezes chorara encostada naquelas paredes. Sentou-se à
cama, apagou a luz e pegou seu celular que ficava embaixo de seu travesseiro.
Alexia
costumava checar suas mensagens, sempre esperava que alguém fosse puxar assunto
com ela em sua página pessoal em uma rede social. Mas esperava em vão, assim
como esperava que a lua desse as respostas para suas lamúrias.
— Talvez eu não
seja conversável — disse a si mesma, após checar todas suas mensagens. Havia
apenas mensagens de seus colegas de classe e de sua melhor amiga.
Ela tinha uma
melhor amiga, por incrível que parecesse, ela tinha uma. Ela sempre fora taxada
como antipática e chata, mas ela tinha uma amiga. Isso era como uma vitória.
Sempre pensara que simpatia fosse praticada por interesse, e que sempre teria
de dar algo em troca se recebesse alguma simpatia. Mas ela não conseguia ser
simpática — bem, ela tentava.
Olhou o feed de notícias, com um olhar cansado e
um olhar de quem não poderia esperar muita coisa. O olhar de sempre. Não tinha
animação para quase nada, somente para fotografar, afinal, era sua paixão.
Alexia amava fotos, já havia construído vários álbuns. Cada álbum era especial.
Seus olhos
foram de encontro a uma foto. À primeira vista ela sorriu, pois a foto estava
bonita, e como fotógrafa tinha de admitir que os modelos eram lindos. Ela
gostava de pensar que fotos tinham almas, e que o fotógrafo era quem capturava
a alma, e a passava para a fotografia.
— Perfeitos! —
murmurou ainda com um sorriso satisfeito em seu rosto.
Na foto havia
um casal, no meio de um gramado, abraçados, rostos colados como quem havia
acabado de trocar um beijo. Fotos eram sua paixão, mas eram também sua
perdição. Uma lágrima brotou em seu rosto.
— Até quando? —
perguntou-se.
A foto trazia à
tona memórias que ela desejava que estivessem enterradas. Ela se vira como a
fotógrafa, e não como a moça feliz. Para ela, nunca seria feliz daquele jeito,
sempre seria amaldiçoada a capturar a felicidade alheia em suas fotos.
— Até quando? —
indagou entre soluços de seu choro, olhando para o teto de seu quarto. As
estrelinhas que absorviam a luz da lâmpada e iluminavam o teto branco de seu
quarto, era o que ela tinha de mais infantil. Era como uma luz em sua vida
sombria.
Seu rosto caiu
sobre o travesseiro. Seus fones de ouvido estavam sobre o criado mudo. O MP3
estava tocando, o som ribombava baixinho, perto de seu travesseiro. Christina Perri cantava Jars of Hearts, perdera as contas de
quantas vezes chorara escutando aquela música. Colocou os fones em seus ouvidos
e aproveitou a melodia triste para debulhar-se mais ainda em lágrimas. Pobre
Alexia, chorava lágrimas tão pesadas que chegavam a doer.
Pobre Alexia,
sofria em silêncio. Lamentava não ser amada, mas também lamentava não amar a si
mesma. Nunca entendera o porquê de tudo aquilo. Por que tudo aquilo lhe fazia
falta?
Os cabelos
ruivos escorriam e grudavam em seu rosto molhado por lágrimas. Seu rosto antes
branco, agora estava vermelho, o sangue queimava em suas bochechas. Ela odiava
a solidão, mas fora castigada a sofrer no silêncio da noite, sufocada em seus
próprios sentimentos platônicos.
Uma vez ouvira:
“Você colhe o que planta”, se esse fosse o caso ela havia sido uma pessoa
horrível anteriormente, pois ultimamente apenas colhia coisas ruins. Ela estava
de luto, não que alguém tivesse morrido, mas ela lamentava, — do fundo de seu
peito—, os sonhos que haviam morrido quando levara seu último “fora”. Pobre
Alexia, chorava sem consolo.
— Por quê? —
questionava-se.
Chorou mais
forte, sufocou seus gritos no travesseiro, lamentou várias vezes, arrependeu-se
cem vezes, morrera mil vezes. Até que sua mente se apagou, ela estava dormindo.
Dormir era quase como um alívio para sua dor, um alívio para a dor em seu
peito. Ela não queria morrer, não tinha coragem suficiente para isso, mas não
queria viver sofrendo, mas apegava-se a uma gota de esperança: Seus sonhos.
Dona de seu
próprio mundo. Governante de suas vontades. Rainha de seus desejos. Mestra de
seus próprios sonhos. Sonhava com um romance perfeito, mas novamente acordaria
chorando. Era tudo sonho, era tudo sonho. Sendo assim.
Ela
queria dormir para sempre.
Trecho de "As fotografias de Alexia". SARFATI, Jairo.