terça-feira, 5 de novembro de 2013

Talvez...

Alexia não era o tipo de garota que reclamava da vida. Ela tinha tudo o que queria, boa educação, boas roupas e tudo aquilo que meninas de classe média tinham. Mas ela reclamava de outra vida, sua vida amorosa era uma droga. Sempre se apaixonara pelo cara errado, nunca pelo cara que estava disposto a fazê-la feliz embora nunca tenha aparecido um —, mas era típico dela. Alguns viam como masoquismo de sentimentos, outros como submissão. Mas ela ignorava a todos. Não importa o quão tentasse fugir, sempre se apaixonaria pelo cara errado.
         Talvez eu seja a garota errada, cogitara.
         Era mais de meia-noite, a rua de sua casa estava vazia, apenas o barulho da selva de pedra — buzinas, sirenes e ronco de motor —, ela gostava daquela sinfonia. Não entendia por que passava horas olhando pela janela, pensava que algo em sua vida fosse mudar se o fizesse. Mas nada mudava, ela sempre continuava sendo ela mesma. Se sentia patética, queria ser diferente.
         Depois de perceber que seu esforços ao olhar para lua eram em vão, ela resolveu deitar-se. Seu quarto era como o quarto de toda garota da idade dela, não era cor-de-rosa, era branco, gostava do ar de paz que as paredes passavam. Perdera as contas de quantas vezes chorara encostada naquelas paredes. Sentou-se à cama, apagou a luz e pegou seu celular que ficava embaixo de seu travesseiro.
         Alexia costumava checar suas mensagens, sempre esperava que alguém fosse puxar assunto com ela em sua página pessoal em uma rede social. Mas esperava em vão, assim como esperava que a lua desse as respostas para suas lamúrias.
         — Talvez eu não seja conversável — disse a si mesma, após checar todas suas mensagens. Havia apenas mensagens de seus colegas de classe e de sua melhor amiga.
         Ela tinha uma melhor amiga, por incrível que parecesse, ela tinha uma. Ela sempre fora taxada como antipática e chata, mas ela tinha uma amiga. Isso era como uma vitória. Sempre pensara que simpatia fosse praticada por interesse, e que sempre teria de dar algo em troca se recebesse alguma simpatia. Mas ela não conseguia ser simpática — bem, ela tentava.
         Olhou o feed de notícias, com um olhar cansado e um olhar de quem não poderia esperar muita coisa. O olhar de sempre. Não tinha animação para quase nada, somente para fotografar, afinal, era sua paixão. Alexia amava fotos, já havia construído vários álbuns. Cada álbum era especial.
         Seus olhos foram de encontro a uma foto. À primeira vista ela sorriu, pois a foto estava bonita, e como fotógrafa tinha de admitir que os modelos eram lindos. Ela gostava de pensar que fotos tinham almas, e que o fotógrafo era quem capturava a alma, e a passava para a fotografia.
         — Perfeitos! — murmurou ainda com um sorriso satisfeito em seu rosto.
         Na foto havia um casal, no meio de um gramado, abraçados, rostos colados como quem havia acabado de trocar um beijo. Fotos eram sua paixão, mas eram também sua perdição. Uma lágrima brotou em seu rosto.
         — Até quando? — perguntou-se.
         A foto trazia à tona memórias que ela desejava que estivessem enterradas. Ela se vira como a fotógrafa, e não como a moça feliz. Para ela, nunca seria feliz daquele jeito, sempre seria amaldiçoada a capturar a felicidade alheia em suas fotos.
         — Até quando? — indagou entre soluços de seu choro, olhando para o teto de seu quarto. As estrelinhas que absorviam a luz da lâmpada e iluminavam o teto branco de seu quarto, era o que ela tinha de mais infantil. Era como uma luz em sua vida sombria.
         Seu rosto caiu sobre o travesseiro. Seus fones de ouvido estavam sobre o criado mudo. O MP3 estava tocando, o som ribombava baixinho, perto de seu travesseiro. Christina Perri cantava Jars of Hearts, perdera as contas de quantas vezes chorara escutando aquela música. Colocou os fones em seus ouvidos e aproveitou a melodia triste para debulhar-se mais ainda em lágrimas. Pobre Alexia, chorava lágrimas tão pesadas que chegavam a doer.
         Pobre Alexia, sofria em silêncio. Lamentava não ser amada, mas também lamentava não amar a si mesma. Nunca entendera o porquê de tudo aquilo. Por que tudo aquilo lhe fazia falta?
         Os cabelos ruivos escorriam e grudavam em seu rosto molhado por lágrimas. Seu rosto antes branco, agora estava vermelho, o sangue queimava em suas bochechas. Ela odiava a solidão, mas fora castigada a sofrer no silêncio da noite, sufocada em seus próprios sentimentos platônicos.
         Uma vez ouvira: “Você colhe o que planta”, se esse fosse o caso ela havia sido uma pessoa horrível anteriormente, pois ultimamente apenas colhia coisas ruins. Ela estava de luto, não que alguém tivesse morrido, mas ela lamentava, — do fundo de seu peito—, os sonhos que haviam morrido quando levara seu último “fora”. Pobre Alexia, chorava sem consolo.
         — Por quê? — questionava-se.
         Chorou mais forte, sufocou seus gritos no travesseiro, lamentou várias vezes, arrependeu-se cem vezes, morrera mil vezes. Até que sua mente se apagou, ela estava dormindo. Dormir era quase como um alívio para sua dor, um alívio para a dor em seu peito. Ela não queria morrer, não tinha coragem suficiente para isso, mas não queria viver sofrendo, mas apegava-se a uma gota de esperança: Seus sonhos.
         Dona de seu próprio mundo. Governante de suas vontades. Rainha de seus desejos. Mestra de seus próprios sonhos. Sonhava com um romance perfeito, mas novamente acordaria chorando. Era tudo sonho, era tudo sonho. Sendo assim.
         Ela queria dormir para sempre.

Trecho de "As fotografias de Alexia". SARFATI, Jairo. 

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