Na solidão do gélido quarto
escuro, eu despertei para mais um dia triste, meus olhos não enxergavam no meio
da escuridão. Estranhamente meu corpo doía. Levantei-me e fui tateando pelos móveis
do quarto até chegar à luz. Meu peito doía, quem diria que um peito vazio ainda
poderia doer. Quando o quarto se iluminou eu fora devastadoramente lembrada do
dia em que todo esse sofrimento começou, o dia mais escuro da minha vida:
Era um intervalo da faculdade, eu estava sozinha na sala
chorando. Eu já estava acostumada a passar o intervalo na sala, mas daquela vez
era diferente. Eu chorava, eu já estava mais do que farta daquela solidão, mas
por acidente ou até mesmo por simples descuido, eu fora condenada à solidão.
Eu havia deixado meu coração cair, e feito vidro, quebrou-se
em pedaços.
A
porta da sala vazia se abriu. Era você com seus jeans negros e sua blusa
listrada. Seu sorriso perfeito iluminou a sala, iluminou meu rosto. Mas eu ignorei,
da mesma forma que eu fui ignorada mais cedo. Eu estava acabada, mas já não
estava mais escuro, chorei.
— Não chore, — era sua mansa voz, que tentava
consolar-me.
— Eu não consigo, dói tanto. — Respondi-lhe entre os soluços
do meu choro.
— Vai passar. Confie em mim, eu prometo vai passar. — Você
ergueu meu rosto, meu corpo estremeceu, logo meu rosto estava indo de encontro ao
seu.
— Eu confio! — Disse enquanto meus olhos estavam conectados
aos meus.
Você sorriu, meu coração estava no chão, você juntou. Quando
você beijou meus lábios, salvou-me daquela escuridão. Minhas mãos tremiam, mas
meus joelhos permaneciam firme feito rocha. Eu estava em seus braços e não mais
em seus pés. E foi aí que você mostrou o lado que eu não conhecia,
surpreendendo-me no jogo, ganhando meu coração.
Quando eu deixei o quarto, deparei-me com a janela do
corredor. Estava chovendo, e a chuva não me trazia boas lembranças. E aquelas
lembranças ardiam em minha mente. Tudo foi real e perfeito demais para ter um
fim. Meu corpo estava quente feito fogo. Aquele dia seria péssimo, sair na
chuva não me fazia nada bem, dias chuvosos não eram os meus melhores. Sair de
casa em dia chuvoso, principalmente em Londres, sempre foi péssimo. Então dei o
primeiro passo para fora de casa, após relutar demasiado, lutando ao vestir um
casaco.
Meu corpo quente feito fogo estava sendo ateado à chuva. Um
passo em uma poça e eu fora novamente lembrada das memórias que eu repudiava:
Estávamos
correndo na chuva em direção a casa dele. Você corria puxando minha mão, eu
lembro-me a paz que seu toque me passava.
—
Corra, corra senão iremos ficar mais molhados ainda. — Você ria, eu adorava
quando você ficava sorridente.
—
Eu não me importo! — Eu dei um sorriso. — Eu quero é aproveitar!
Puxei
sua mão para pararmos, puxei seu corpo, vindo de encontro ao meu. Fiquei
observando o seu rosto. Tocando-o, enquanto nossos corpos quentes queimavam na
chuva. Aquele era de longe o momento mais feliz da minha vida.
Eu
chorava de alegria, a chuva disfarçava minhas lágrimas. Um beijo na chuva foi
como fogo ateado a ela, e aquvocê beijo havia sido tão bom quanto o primeiro.
Pertencíamos um ao outro.
—
Eu te amo.
—
Eu também. — Você respondeu.
Quando
toquei seu rosto novamente escutei alguém gritar seu nome, era sua mãe, chamando-lhe
para voltar a casa. E então corremos até lá.
Era
triste lembrar-lhe, em dias chuvosos principalmente. Pois meus tempos com você
foram os melhores de minha vida. Entristecia-me saber que tudo acabou, mas que
era tão fácil estar nesses momentos quando eu fechava meus olhos. Eu sentia você
aqui, comigo, para sempre, meu.
Eu
e você? Nada melhor!
Quando
eu virei à esquina, eu deparei-me com a cena que mudaria meu dia:
Você vagando pela rua, e uma menina loura, ao
seu lado. Segurando sua mão. E aquilo me lembrou da segunda vez que ateamos
fogo a chuva. Quando eu descobri que tudo o que você dizia não era verdade.
Foi
no beco atrás da faculdade, em outro dia chuvoso, era mais do que comum; em
minha Londres, que eu descobri que tudo o que havíamos vivido fora uma mentira.
Você estava beijando outra.
Eu
gritei seu nome. Você saiu dos braços dela e correu até mim.
—
Não é o que você está pensando. — Você iniciou mais uma de suas mentiras.
—
Exatamente, não é o que penso, é o que vejo. — Toquei seu rosto. — É tão
difícil acreditar. — Eu chorava.
Não
conseguia imaginar em como fora possível chegarmos àquela situação,—Traição.
A
mão que estava em seu rosto, virou em uma tapa quente banhado em lágrimas e
decepção. Meu corpo queimava em fúria, quase se era possível queimar a chuva. A
outra gritou seu nome, eu chorava enquanto meu corpo queimava a chuva. Senti
algo em meu interior morrer, talvez fora o amor falso que você havia me dado.
Você ateou fogo ao meu coração.
E
eu sabia que aquela seria a última vez, a última vez.
E
eu queria realmente que fosse a última vez, deparar-me contigo na rua foi
demasiado ruim. Corri de volta à minha casa, tranquei-me. Aquilo era ruim, pois
no fundo no fundo eu ainda esperava por você.
Todas
as vezes em que eu acordava perto da porta, quando meu subconsciente simulava
sua voz, talvez meu coração quebrado, que você consertou, estivesse esperando
por você. Mesmo quando ainda não estivéssemos juntos, ele não parava de
procurar por você, —meu coração.
Você
que partiu com um pedaço dele, que eu espero verdadeiramente que um dia, você
se dê conta que esse pedaço está com você e traga-o de volta a mim. Queria
poder amar-te como eu amei à primeira vez.
Dar-te mais um beijo fervoroso, e contigo atear novamente fogo à chuva.
“Toc Toc” alguém batia à porta, eu
abri. Era você, aquilo me assustou.
Eu
fechei a porta na sua cara.
—
Por favor, me escute. — Insistiu.
—
Não quero mais ouvir suas mentiras, — disse rispidamente.
—
Eu ainda lhe amo, eu nunca lhe esqueci. Aquele beijo fora à força. Ela que me
beijou.
—
É mentira. Você estava com uma loura em seus braços agora há pouco.
—
Ela? É minha irmã.
Eu
abri a porta. Você chorava, parecia arrependido.
—
É tarde demais, — foi difícil dizer, mas não consertava nada.
—
Eu entendo. — Você disse, virando-se para ir embora.
Eu
não estava pronta para perdoar uma traição, não estava pronta para ver seu
rosto novamente. Eu ainda me lembraria de tudo o que aconteceu. Mas eu ainda
lhe amava. Eu gritei seu nome e ateei-me à chuva novamente, como fogo. Dei-lhe
o beijo fervoroso que para sempre eu iria lembrar. Que antes eu desejava. Eu
havia lhe perdoado, pois ainda lhe amo.
E
todas as memórias ruins? Deixe queimar. Queimar como os nossos corpos que
estavam queimando a chuva.
Let it burn! Let it burn!
Jairo Sarfati
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