Capítulo 5 – Morte
Atordoadamente saí correndo daquele colégio, eu
não queria mais me deparar com nenhum rosto daquele local, cenário de minha
tristeza e de minha ruína pessoal. Cada lágrima que em mim escorria era uma
lembrança de cada risada proferida. Talvez eu nunca tivesse me apaixonado, fui
boba, fui tola e ingênua. Talvez eu não devesse ter compartilhado meus segredos
em um diário, talvez não tivesse deixado meu diário vulnerável. Fui promíscua.
No gramado na frente da escola estava meu diário jogado. Katherine havia ateado-o
pela janela. Juntei as páginas, e a foto e os desenhos que eu havia feito de
Victor, todos estavam espalhados no chão. Coloquei tudo dentro do meu casaco,
ainda chorando, correndo, de volta para casa, apenas lá eu poderia ter paz.
Minha correria se seguiu, eu já não prestava atenção no caminho, — estava em
estado automático. Não conseguia ver o
que estava à minha frente, apenas lágrimas era o que eu conseguia produzir e
nada mais.
— Cuidado menina! — Uma voz nada familiar soou
atrás de mim, não liguei e continuei a correr e logo iria me deparar com o
objeto do qual ele havia me mandado tomar cuidado.
— Beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeenn.
— E esse foi o último som que consegui escutar. Um baque me veio juntamente com
aquele som e aquilo realmente era meu fim. Sentia o gosto úmido e quente que
era o sangue que por minha boca estava a fluir. Poderia descansar de cada
risada e realmente nunca mais veria ninguém daquela escola e nunca se lembraria
daquelas memórias. E aos braços da morte me entreguei. A morte era a única
maneira de escapar daquela dor, a dor de meu corpo ensanguentado era menor que
a dor de cada risada, era menor do que a dor de ver o rosto de Victor ao saber
de tudo aquilo; de minha paixão, principalmente. Quem diria que a morte seria o
alívio para toda aquela dor. Não pude mais resistir.
Semicerrei os olhos tudo o que via era uma luz
forte, então era assim que o céu era. Uma imensidão branca e iluminada. Meu
olhos não estavam acostumados com tanta luz, estava quase cega naquela
imensidão branca. Não havia nuvens como eu pensava, o céu era apenas um lugar
branco vazio? Onde estão os portões celestiais, os anjos, arcanjos e Deus? Onde eu estava, lá era realmente o céu? Eu
sentia meus pensamentos ecoarem, eles pareciam de propagar por todo aquele
lugar, eles não estavam apenas em minha mente, eles estavam saindo de minha
cabeça. Em meu corpo não havia sangue, não havia ferida, não havia dor. A dor
da humilhação era a única coisa que ainda havia em minha mente, nem a morte foi
capaz de apagar aquilo. Por um momento eu me lembrei de Victor; Como ele
receberia a notícia de minha morte? Seria isso um tipo de doce pesadelo? Mesmo após a morte meus sentimentos permaneciam tão
vivos quanto antes.
— Onde eu estou? — Gritei, entre os soluços do
meu choro.
— Aqui não é o seu lugar. — respondeu uma voz.
— Que lugar é esse? — perguntei confusa.
— Não aqui não é o seu lugar. — A voz era fina
e juvenil. Virei--me para ver de onde aquela voz estava vindo. E me deparei com
uma criancinha loira de olhos grandes de um azul celeste, semelhantes aos olhos
de Victor. Nunca em toda minha vida eu havia visto criança mais bonita. Melhor
dizendo em toda aquela minha existência patética eu nunca havia visto criança
provida de tal beleza. Ela tinha um pequenino par de asas angelicais em suas
costas.
— Onde eu estou? Você é um anjo? — Perguntei. A
criancinha que longe estava começou a andar em minha direção. Logo estava ao
meu lado. Ela voava tão rápido, mesmo com asinhas pequenas era alcançaria fácil
uma grande distância. Agora ela estava pairando do meu lado.
— Você está na passagem entre a vida e a morte.
Sim, sou um anjo. — Não era exatamente a resposta que eu esperava. — Não era
sua hora. Está tudo errado. — Entrei em uma onda de pavor. — Sua missão ainda
não foi cumprida.
Não era minha hora? Como assim? Eu não deveria
ter morrido? Eu estava confusa, meu rosto estava grudento por conta das
lágrimas que eu havia derramado há alguns segundos.
— Que missão? — Perguntei.
— Isso você que tem que descobrir. Meu pai, ele
não me permite falar. — Seu pai, aquele seria Deus? O nosso todo poderoso e
bondoso Deus. O pai de todos os humanos. — Venha comigo, eu tenho que lhe
mostrar uma coisa. — E ela estendeu sua pequenina mão para eu segurar. Obedeci
àquela mão extremamente pequena e delicada. E de repente estávamos voando pelo
céu. Era surreal.
Agora sim eu podia ver nuvens, não era mais
aquela dimensão branca, silenciosa e depressiva. Cruzamos uma enorme nuvem e eu
podia avistar uma pequena cidade. Aquela cidade me parecia familiar. Quanto
mais nos aproximávamos mais ela me parecia mais familiar ainda. Aquela era
minha cidade natal, minha velha Londres. Pude reconhecer pelas maravilhas de
meu mundo, a Tower Bridge, o Tâmisa e o Big Ben. Minha cidade natal era linda.
Depois de mais alguns minutos de voo estávamos perto do bairro onde aconteceu a
minha tormenta e minha ruína. — O distrito escolar —, lágrimas tomaram conta de
meu rosto novamente, só de imaginar a humilhação ali ocorrida. Literalmente
eram lágrimas fúnebres, eu lamentava e chorava minha morte. Pois estava cara a
cara com meu corpo ensanguentado e sem vida. Estirado ao chão, com algumas
pessoas ao redor. O carro que havia me matado estava parado mais a frente, a
fronte do carro estava toda manchada de sangue. — Meu sangue; estremeci àquela
afirmação. O pobre motorista, que de nada tinha culpa, era um dos poucos que
choravam aquela cena, Talita, a professora, era outra que em lágrimas se
derramava. Não havia nenhum sinal do aparecimento de meus pais. Pior de tudo
aquilo era que, os causadores da minha ruína inicial estavam presentes.
Contemplando minha morte ou até contemplando meu fracasso.
— Essa é você em seu pior estado, sua morte não
foi premeditada. Nunca esteve em nossos planos tal morte para você. Você não
poderia morrer sem completar sua missão. Faltavam algumas páginas de seu livro
da vida. — Tudo aquilo estava sendo difícil de assimilar, ver meu corpo morto
foi realmente a pior cena que meus olhos já fitaram. Desperdiçamos mais algum
tempo a observar aquela cena, logo se via minha mãe em desespero, chegando
àquela cena. Ela chorava desesperada, aquilo partia-me o coração, era demasiado
para mim. Ver a pessoa que eu mais amo chorando doía mais do que morrer.
— Me tire daqui, não suporto a dor de ver minha
mãe chorando. — Falei, ainda com meu rosto banhado em lágrimas.
Então a criança, ou anjo; como ela preferia ser
chamada, segurou minha mão novamente e me levou para outro local familiar para
mim. A Trafalgar Square estava movimentada, sentado na fonte estava Victor, ele
estava triste, chorando. Ele estava triste por minha morte? Aquela cena cortava
meu coração também, o anjo me puxou para mais perto. De repente parecia que o
tempo havia parado. Não havia mais ninguém na Trafalgar Square, apenas Victor
sentado na fonte. O anjo me largou no chão e eu corri até ele, sentando-se ao
lado dele.
Eu sentia dor, em saber que nunca mais
ver-lhe-ia novamente.
— Você
pode me escutar? Você pode me escutar? — Em vão, ele não podia me escutar.
Tentei tocá-lo, mas minha mão não transpassou a
dele. Aquilo era triste, me sentia congelando por dentro.
Frozen inside, without you touch, without
your Love.
— Por que ele não pode me escutar? — Gritei ao
anjo.
— Você está morta, esqueceu? Ele lamenta sua
morte, ele queria ter mais tempo ao seu lado. — Disse ela. Mais tempo ao meu
lado... Eu queria viver mais tempo ao lado dele.
Darling,
only you are the life among the dead.
E ele era realmente a minha única vida entre a
morte.
— Eu queria poder passar mais tempo ao lado
dele. — Eu chorava.
— E você vai... — Disse o anjo.
Eu voltaria à vida? Mas como? Aquilo era
possível? Meu corpo estava dilacerado. Apressei-me a perguntar.
— Como?
— Tudo ao seu tempo, vamos dê-me sua mão. —
Obedeci.
Good-bye,
my little gentleman. E a Trafalgar Square estava movimentada novamente.
O Anjo estava me levando para outro lugar
conhecido, era a alguns quilômetros da Trafalgar, eu conhecia aquele lugar.
Aquele era o maior hospital de minha cidade. Um hospital onde eu nunca havia
ido, frequentado apenas por ricos, pagar a conta de um hospital como esse
quando ficasse doente era quase o valor da minha pequena casa no subúrbio de
Londres. As paredes eram enormes e grossas. Mas conseguimos atravessá-las como
se ela fosse uma poeira que poderia ser facilmente penetrada. Logo estávamos
diante de uma menina de uma beleza singular, de pele branca e cabelos loiros. A
cor dos olhos não poderia ser definida, já que ela estava desacordada. Também
havia uma mulher ao lado dela que chorava.
— Pobre Sophia, sua morte era premeditada, mas
ela é tudo que sua mãe tem. — A menina falava em um tom de comoção, ela parecia
realmente se importar com aquela menina sobre a cama ligada a todos aqueles
aparelhos. — Os médicos lhe disseram que não havia mais nada a fazer pela filha.
— E o coração daquela menina estava começando a diminuir o ritmo das batidas.
Podia-se notar pelo visor do aparelho que media os batimentos cardíacos. Então
sua mãe começou a entrar em desespero e logo os médicos entraram na sala e
iniciaram uma tentativa desesperada de animar a menina, usando um desfibrilador
— Já é a hora de ela partir, e então agora sua hora chegou.
—
Minha hora? Eu já morri o que mais me resta? — Aquilo poderia ser no mínimo
algum tipo de humor negro.
—Você
vai retornar!
E a
menina agarrou-me pelas costas e me levou para perto da menina loira sendo
reanimada. E de forma abrupta ela me colocou junto ao corpo da menina. Eu senti
a alma dela se esvaindo, a essência de sua vida indo embora. Mas ao mesmo tempo
eu sentia minha alma sendo puxada por aquele corpo. Eu estava sendo inserida em
um novo corpo. Eu sentia minha alma ligar-se à cada célula, à cada veia e até
mesmo seu coração. Naquele momento, eu sabia do topo da minha nova cabeça ao
solado dos meus pés. De minha língua até o cerne de meus ossos que tudo naquele
corpo me pertencia, não era mais aquela outra alma. Era eu dentro daquele
corpo.
—
Aproveite a sua nova vida. — Senti o anjo partir, com meus ouvidos; eu podia
chamar aquilo de meu, afinal, era minha vida. Com o farfalhar de suas asas e
sua risadinha infantil, eu sentia as duas partindo. Podia imaginar a cena, a
menina loura e o anjo indo embora de mãos dadas, mesmo com os olhos fechados,
aquela cena estava tão vívida em minha mente quanto as novas reações de meu
novo corpo.
Wake me up.
Bid me blood to run.
I can’t wake up.
Before I come undone.
Save me!
Rendi-me
àquilo, e minha alma já estava completamente conectada àquele corpo. Um último
baque elétrico do desfibrilador e senti meu corpo saltar da cama. E então abri meus olhos.
Now
that I know when what I’m without. You can’t just leave me breathe me and make
me real. Bring
me to life.
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