YULE
Retornamos para a casa; o sol estava quase se
pondo. Victoria levou-me até seus aposentos e, de dentro de um porta joias, tirou
um cordão lindo. Era um cordão dourado com um pingente em formato de uma asa. O
cordão que Victoria havia pegado tinha um rubi vermelho incrustado.
A noite estava
ficando mais intensa; a lua estava a fio no céu. Era Yule. Descemos as escadas,
e a criada chegou até Victoria:
— Senhora, está na
hora. — anunciou ela. A que ela estava
se referindo? Seria algum sabbat?
— Eu sei, eu sei.
Venha, acompanhe-me.
Nós a seguimos até
os fundos da casa. A criada trazia consigo uma cesta de palha nos braços que
continha velas e material ritualístico.
— O que ela irá
fazer? — perguntei à criada.
— Hoje é o
solstício de inverno, Yule, ela irá fazer seu Sabbat. — respondeu.
Aquela seria a
primeira vez que eu veria Victoria fazendo um sabbat. Eu estava animado. Todos
nós paramos em linha reta ao chegar ao quintal: Victoria havia lançado uma
magia sobre sua casa que impedia que a neve caísse sobre seu quintal. Lá era um
lugar mágico onde a neve não poderia tocar.
— Observe! — Disse
ela enquanto passava por mim. Ela ajoelhou-se sobre a grama, fazendo reverência
ao chão.
A criada saiu do
meu lado e começou a distribuir os materiais ao seu redor. Fazendo um círculo com as velas amarelas, elas
representavam o conhecimento e a justiça, o Deus que ali seria cultuado era
Uller. Dois outros criados
entraram com um caldeirão e o colocaram à frente de Victoria, em cima da pilha
de lenha que lá havia. Em seguida, a criada colocou uma bandeja de prata sobre
a bancada de pedra — suspensa pela magia executada por Victoria ao reverenciar
o chão — que ficava perto do caldeirão. Ela ordenou que os criados nos deixassem
a sós. A criada partiu e os demais partiram em direção à casa.
— A noite está
linda, não está, Allan? — Olhei para o céu enfeitiçado e ele estava limpo; em
outros lugares a neve caía. A lua estava linda naquela noite. Aquele era
realmente o solstício de inverno.
— Existe algo que a
Deusa faça que não seja lindo? — respondi com uma pergunta. Victoria riu.
— Mantenha sua
varinha nas mãos, Allan.
Meneei a cabeça
concordando.
— Ó, Mãe, dê-me
forças! — As velas acenderam-se e a lenha debaixo do caldeirão estava em chamas.
Eu podia escutar apenas o estalar das brasas.
Ela retirou da
bainha de sua saia vermelha um punhal de prata e meneou-o pelo ar, controlando
sua respiração.
— Com esse punhal,
eu inicio esse Sabbat. — O ritual havia começado. Eu sabia que naquele momento
só seria ela e o Deus naquele lugar: os demais não teriam importância.
Ela pegou umas
pétalas de uma
flor australiana chamada “sempre-viva” e triturou-as com a
faca, despejando-as dentro do caldeirão que estava borbulhante. Depois
acrescentou alguns ramos de alecrim, quebrando-os em pequenos pedaços e
colocando um a um dentro do caldeirão. Erva-doce, cravo e pimenta branca também
foram acrescentados à mistura. Eu não sabia que porção era aquela: talvez fosse
apenas parte do Sabbat. Ela pegou o cálice de prata incrustado de pedras
preciosas e despejou a cidra, cortando a maçã em pequenos pedaços e colocando
os pedaços cortados dentro do cálice, com um pouco de uva. Aquele era o mesmo
cálice que eu usei em meu Sabbat de Samhain. Ela bebeu um pouco da cidra.
— Adentre meu
corpo, és teu sangue em mim, ó Deus! — ela acrescentou
essência de sândalo na cidra, cuspiu dentro e despejou no caldeirão, mexendo-o
com sua varinha.
O caldeirão fervia, as velas queimavam em chama alta, como nunca antes. A lua a fio no céu fazia sua luz iluminar todos os lugares do quintal. Ela pegou o punhal que estava sobre a mesa de pedra e fez um pequeno corte na palma de sua mão, deixando o sangue escorrer no caldeirão. Depois, ela jogou um pouco de porção de cura que havíamos feito naquele dia sobre o ferimento, fazendo-o fechar, sem deixar cicatriz.
O caldeirão fervia, as velas queimavam em chama alta, como nunca antes. A lua a fio no céu fazia sua luz iluminar todos os lugares do quintal. Ela pegou o punhal que estava sobre a mesa de pedra e fez um pequeno corte na palma de sua mão, deixando o sangue escorrer no caldeirão. Depois, ela jogou um pouco de porção de cura que havíamos feito naquele dia sobre o ferimento, fazendo-o fechar, sem deixar cicatriz.
— Esse é meu
sangue, o sangue da minha família, o povo das bruxas. Sangue da velha Senhora
da Magia e do Velho mago Celta. Grande Líder e grande Pai. Meus antepassados,
minha linhagem, o sangreal que em mim corre.
Um ritual feito com
sangue era um ritual forte, um ritual feito com sangreal era capaz de grandes
coisas. O sangreal era raro; apenas os nascidos em família real dos bruxos
possuíam. Atualmente, apenas eu e Victoria tínhamos aquele sangue. O sangue era
uma promessa: os bruxos nos seguiriam onde fosse.
Ela pegou o cordão
com o pingente de asa com rubi incrustado. Ele brilhava mais do que nunca:
parecia que havia uma fogueira ardente dentro do rubi. Ela mergulhou o pingente
no caldeirão fervente e retirou rapidamente, lançando logo em seguida uma magia
no caldeirão.
Ela colocou o
pingente novamente. À medida que o pingente dançava dentro do caldeirão, as
chamas das velas subiam, chegando a atingir o tamanho de uma pessoa adulta.
Aquele ritual era
poderoso em demasia.
— Ó Pai, proteja o
bruxo que esse pingente portar! Proteja-o contra a magia negra, proteja-o
contra o mal, proteja-o com meu sangue! Em nome da família Le Fey! Uller, eu
sei que me escuta, atenda meu pedido! É isso que lhe peço, e está é minha
oferenda a você!
Ela tirou novamente de sua bainha uma enorme e suculenta maçã, ateou no caldeirão, fazendo com que a água evaporasse. As velas foram apagando-se uma a uma; o caldeirão apagou-se, sobrando apenas uma fumaça vermelha que subia aos céus. Victoria desmaiou sobre a grama. A criada passou por mim correndo. Eu também corri: eu queria ajudar Victoria. A criada parou-me com sua mão.
Ela tirou novamente de sua bainha uma enorme e suculenta maçã, ateou no caldeirão, fazendo com que a água evaporasse. As velas foram apagando-se uma a uma; o caldeirão apagou-se, sobrando apenas uma fumaça vermelha que subia aos céus. Victoria desmaiou sobre a grama. A criada passou por mim correndo. Eu também corri: eu queria ajudar Victoria. A criada parou-me com sua mão.
— Não vá. Ela está
bem. O ritual funcionou.
Ela continuou em
direção a Victoria, pegando o cordão que estava em sua mão. E voltou até mim.
— Vamos, use isso.
— ordenou ela. — São ordens da mestra.
Ela andou para trás
de mim colocando o cordão em meu pescoço. Quando ela fechou-o em meu pescoço,
eu senti uma energia que nunca havia sentido antes. A criada deu um salto para
longe quando minhas asas brancas abriram-se, rasgando minha camisa. Meu corpo
ficou brilhante e começou a flutuar; a asa do pingente flutuava à minha frente.
Eu sentia-me forte: sentia-me vivo, um verdadeiro bruxo, sentia-me como se
houvesse acabado de receber uma benção dos deuses. Apenas com meu olhar acendi
novamente as velas, fazendo Victoria despertar de seu desmaio.
— Contemplem o
príncipe dos bruxos, ele agora tem a benção dos Deuses para sua jornada. Ele irá
salvar o mundo.
— Meu príncipe! — Bradou a criada fazendo
reverência.
Então aquele era meu fado: príncipe dos bruxos,
príncipe da caída W.I.C.C.A., cuja missão seria reerguê-la. Aquilo estava
escrito em meu destino, escrito nas estrelas. Eu deveria salvar minha mãe, e
salvar o mundo de ficar envolto em magia negra.
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É muito triste ter que abandonar essa história, mas é a escolha sensata a se fazer. Espero que gostem.
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