sexta-feira, 21 de junho de 2013

A Chave da Magia - Yule

YULE
Retornamos para a casa; o sol estava quase se pondo. Victoria levou-me até seus aposentos e, de dentro de um porta joias, tirou um cordão lindo. Era um cordão dourado com um pingente em formato de uma asa. O cordão que Victoria havia pegado tinha um rubi vermelho incrustado. 
A noite estava ficando mais intensa; a lua estava a fio no céu. Era Yule. Descemos as escadas, e a criada chegou até Victoria: 
— Senhora, está na hora. — anunciou ela. A  que ela estava se referindo? Seria algum sabbat? 
— Eu sei, eu sei. Venha, acompanhe-me. 
Nós a seguimos até os fundos da casa. A criada trazia consigo uma cesta de palha nos braços que continha velas e material ritualístico. 
— O que ela irá fazer? — perguntei à criada. 
— Hoje é o solstício de inverno, Yule, ela irá fazer seu Sabbat. — respondeu. 
Aquela seria a primeira vez que eu veria Victoria fazendo um sabbat. Eu estava animado. Todos nós paramos em linha reta ao chegar ao quintal: Victoria havia lançado uma magia sobre sua casa que impedia que a neve caísse sobre seu quintal. Lá era um lugar mágico onde a neve não poderia tocar. 
— Observe! — Disse ela enquanto passava por mim. Ela ajoelhou-se sobre a grama, fazendo reverência ao chão. 
A criada saiu do meu lado e começou a distribuir os materiais ao seu redor. Fazendo um círculo com as velas amarelas, elas representavam o conhecimento e a justiça, o Deus que ali seria cultuado era Uller. Dois outros criados entraram com um caldeirão e o colocaram à frente de Victoria, em cima da pilha de lenha que lá havia. Em seguida, a criada colocou uma bandeja de prata sobre a bancada de pedra  suspensa pela magia executada por Victoria ao reverenciar o chão  que ficava perto do caldeirão. Ela ordenou que os criados nos deixassem a sós. A criada partiu e os demais partiram em direção à casa. 
— A noite está linda, não está, Allan? — Olhei para o céu enfeitiçado e ele estava limpo; em outros lugares a neve caía. A lua estava linda naquela noite. Aquele era realmente o solstício de inverno. 
— Existe algo que a Deusa faça que não seja lindo? — respondi com uma pergunta. Victoria riu. 
— Mantenha sua varinha nas mãos, Allan. 
Meneei a cabeça concordando.  
— Ó, Mãe, dê-me forças! — As velas acenderam-se e a lenha debaixo do caldeirão estava em chamas. Eu podia escutar apenas o estalar das brasas. 
Ela retirou da bainha de sua saia vermelha um punhal de prata e meneou-o pelo ar, controlando sua respiração. 
— Com esse punhal, eu inicio esse Sabbat. — O ritual havia começado. Eu sabia que naquele momento só seria ela e o Deus naquele lugar: os demais não teriam importância. 
Ela pegou umas pétalas de uma flor australiana chamada “sempre-viva” e triturou-as com a faca, despejando-as dentro do caldeirão que estava borbulhante. Depois acrescentou alguns ramos de alecrim, quebrando-os em pequenos pedaços e colocando um a um dentro do caldeirão. Erva-doce, cravo e pimenta branca também foram acrescentados à mistura. Eu não sabia que porção era aquela: talvez fosse apenas parte do Sabbat. Ela pegou o cálice de prata incrustado de pedras preciosas e despejou a cidra, cortando a maçã em pequenos pedaços e colocando os pedaços cortados dentro do cálice, com um pouco de uva. Aquele era o mesmo cálice que eu usei em meu Sabbat de Samhain. Ela bebeu um pouco da cidra.
— Adentre meu corpo, és teu sangue em mim, ó Deus! — ela acrescentou essência de sândalo na cidra, cuspiu dentro e despejou no caldeirão, mexendo-o com sua varinha. 
O caldeirão fervia, as velas queimavam em chama alta, como nunca antes. A lua a fio no céu fazia sua luz iluminar todos os lugares do quintal. Ela pegou o punhal que estava sobre a mesa de pedra e fez um pequeno corte na palma de sua mão, deixando o sangue escorrer no caldeirão.
 Depois, ela jogou um pouco de porção de cura que havíamos feito naquele dia sobre o ferimento, fazendo-o fechar, sem deixar cicatriz. 
— Esse é meu sangue, o sangue da minha família, o povo das bruxas. Sangue da velha Senhora da Magia e do Velho mago Celta. Grande Líder e grande Pai. Meus antepassados, minha linhagem, o sangreal que em mim corre. 
Um ritual feito com sangue era um ritual forte, um ritual feito com sangreal era capaz de grandes coisas. O sangreal era raro; apenas os nascidos em família real dos bruxos possuíam. Atualmente, apenas eu e Victoria tínhamos aquele sangue. O sangue era uma promessa: os bruxos nos seguiriam onde fosse. 
Ela pegou o cordão com o pingente de asa com rubi incrustado. Ele brilhava mais do que nunca: parecia que havia uma fogueira ardente dentro do rubi. Ela mergulhou o pingente no caldeirão fervente e retirou rapidamente, lançando logo em seguida uma magia no caldeirão. 
Ela colocou o pingente novamente. À medida que o pingente dançava dentro do caldeirão, as chamas das velas subiam, chegando a atingir o tamanho de uma pessoa adulta.
Aquele ritual era poderoso em demasia. 
— Ó Pai, proteja o bruxo que esse pingente portar! Proteja-o contra a magia negra, proteja-o contra o mal, proteja-o com meu sangue! Em nome da família Le Fey! Uller, eu sei que me escuta, atenda meu pedido! É isso que lhe peço, e está é minha oferenda a você! 
Ela tirou novamente de sua bainha uma enorme e suculenta maçã, ateou no caldeirão, fazendo com que a água evaporasse. As velas foram apagando-se uma a uma; o caldeirão apagou-se, sobrando apenas uma fumaça vermelha que subia aos céus. Victoria desmaiou sobre a grama. A criada passou por mim correndo. Eu também corri: eu queria ajudar Victoria. A criada parou-me com sua mão. 
— Não vá. Ela está bem. O ritual funcionou. 
Ela continuou em direção a Victoria, pegando o cordão que estava em sua mão. E voltou até mim. 
— Vamos, use isso. — ordenou ela. — São ordens da mestra. 
Ela andou para trás de mim colocando o cordão em meu pescoço. Quando ela fechou-o em meu pescoço, eu senti uma energia que nunca havia sentido antes. A criada deu um salto para longe quando minhas asas brancas abriram-se, rasgando minha camisa. Meu corpo ficou brilhante e começou a flutuar; a asa do pingente flutuava à minha frente. Eu sentia-me forte: sentia-me vivo, um verdadeiro bruxo, sentia-me como se houvesse acabado de receber uma benção dos deuses. Apenas com meu olhar acendi novamente as velas, fazendo Victoria despertar de seu desmaio. 
— Contemplem o príncipe dos bruxos, ele agora tem a benção dos Deuses para sua jornada. Ele irá salvar o mundo. 
—  Meu príncipe! — Bradou a criada fazendo reverência. 
Então aquele era meu fado: príncipe dos bruxos, príncipe da caída W.I.C.C.A., cuja missão seria reerguê-la. Aquilo estava escrito em meu destino, escrito nas estrelas. Eu deveria salvar minha mãe, e salvar o mundo de ficar envolto em magia negra.

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É muito triste ter que abandonar essa história, mas é a escolha sensata a se fazer. Espero que gostem. 

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